quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Leitos para usuários de drogas estão lotados


Leitos para usuários de drogas estão lotados





A decisão de Alberto* de acorrentar João* dentro de casa revela o desespero de um pai que espera por um leito para tentar salvar o filho do vício das drogas. Usuário de crack há cinco anos, o jovem aceitou passar pelo tratamento. Agora a família santa-cruzense vive outro dilema: encontrar uma vaga para a internação. Com os leitos lotados, os dependentes que buscam tratamento na região precisam ficar em uma lista de espera.
Enquanto isso, pai e filho fizeram um acordo. Para continuar morando em casa, o jovem precisa permanecer preso a uma corrente e um cadeado. “Foi o único modo que encontrei de tentar manter ele longe das ruas. Se não for assim, quando eu volto para casa ele já levou o que pode para trocar por drogas. Hoje ele está pedindo para se tratar”, conta o pai. Mesmo acorrentado, o jovem encontra formas de fugir. No último sábado, depois de desaparecer por dias, João foi encontrado pelo pai no Bairro Senai. “Quando ele some é sempre essa angústia, eu estou comendo e pensando, o que será que meu filho está comendo? Onde será que está dormindo? Chegou a um ponto em que eu já pensei que talvez fosse melhor se ele estivesse morto”, diz.
Mesmo com cursos técnicos, o jovem não permanece nos empregos. Há um mês, a mulher de Alberto* desistiu de tentar ajudar o filho e preferiu sair de casa. O drama pôs fim ao casamento de mais de 20 anos. “Ela tentou ajudá-lo de todas as formas, mas é uma vida de altos e baixos. Agora, ela preferiu se afastar. É uma situação muito difícil. Eu não desejo para nenhum pai passar por isso”, desabafa. Se não conseguir a vaga para a internação ainda nesta semana, o pai pretende buscar apoio em Porto Alegre, para tentar manter o filho longe do vício.
A luta por um leito, vivida pela família, se repete em outros lares. Todos os hospitais da região estão com as vagas lotadas e já possuem listas de espera. Em Santa Cruz, município com maior população no Vale do Rio Pardo, existem apenas dois leitos para internação de desintoxicação – fase inicial do tratamento. Enquanto o governo federal planeja qualificar o tratamento para usuários, por meio do programa Crack, é possível vencer, as casas de saúde do município não manifestam interesse em ampliar os leitos para esse tipo de tratamento.
O secretário de Saúde de Santa Cruz, Edison Rabuske admite que a situação atual é insuficiente para atender à demanda por leitos. Quando os usuários necessitam de internação, o município precisa buscar vagas em outras cidades, como Rio Pardo e Candelária. “Sabemos que existe dificuldade na hora de conseguir os leitos e estamos tentando resolver isso”, afirmou.
Até o final desta semana, Rabuske pretende se reunir com a direção do hospital de Monte Alverne, que ainda avalia a possibilidade de implantação de leitos para dependentes químicos. A intenção, segundo o secretário, é conseguir implantar pelo menos dez leitos no local. “Como as outras casas de saúde não demonstraram interesse e o hospital possui espaço, acreditamos que seja a melhor solução”, disse.
Na manhã de hoje, Rabuske estará em Porto Alegre para obter mais detalhes sobre o programa do governo federal. Uma equipe interministerial desembarcou ontem em Porto Alegre para avaliar como é realizado o combate às drogas no Rio Grande do Sul. O Estado está entre os oito que devem assinar o pacto com o governo.

* Os nomes são fictícios.

REGIÃO

Rio Pardo
O Hospital dos Passos possui 22 leitos para dependentes químicos. Todas as vagas são para homens e estão ocupadas até março.

Candelária
O Hospital de Candelária mantêm 38 leitos para atender usuários de drogas. Desses, 26 são masculinos, 10 são femininos e 2 para adolescentes.

Santa Cruz
No Hospital Santa Cruz existem apenas duas vagas para atendimento de dependentes. Os leitos estão ocupados.

Entenda

O governo federal deve firmar com oito estados, até o fim do primeiro semestre, o termo de adesão ao programa Crack, é possível vencer. O pacto pretende aumentar a oferta de tratamento de saúde e atenção aos usuários de drogas, enfrentar o tráfico e as organizações criminosas e ampliar atividades de prevenção. Uma comitiva interministerial desembarcou em Porto Alegre ontem para delinear a inserção do Rio Grande do Sul no programa. Cerca de 30 técnicos dos ministérios da Justiça, do Desenvolvimento Social, da Saúde e da Casa Civil vão passar três dias no Estado. O objetivo é conhecer a realidade do combate à droga para determinar quais ações serão realizadas. No total, o governo federal pretende investir R$ 4 bilhões no projeto.

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